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A Casa dos Dois Amores - 1º Capítulo



1. A Promessa


Natal de 1962. Deitado em sua cama, Felipe pensava na conversa que tinha tido com os pais, poucas horas atrás. Na imensa solidão de seu quarto, relembrava a infância feliz e pensava, preocupado, no futuro que ele mesmo havia escolhido para si.

Passara toda sua vida ali, naquela mesma casa, naquela mesma cidade, na companhia das mesmas pessoas frequentadoras das missas dominicais na paróquia de São Pedro. Sempre foi participativo nas atividades da igreja graças a seu pai, um católico fervoroso que fazia toda a família acompanhá-lo em sua devoção.

Benedito Silva queria mesmo era ter sido padre, mas, tendo sua mãe morrido logo após seu nascimento e seu pai pouco antes dele completar três anos de idade, o pequeno órfão ficou aos cuidados da avó Ana que, idosa demais para trabalhar, vivia de uma pequena pensão deixada pelo falecido marido que mal dava para se alimentarem, quanto mais para o enxoval e os gastos exigidos para a entrada do menino no convento.

Desde muito novo, Benedito aprendeu a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Mesmo sem estudar, sabia e fazia de tudo um pouco: consertava encanamentos, pintava paredes, fazia reformas em casas... e foi assim que conheceu a futura esposa. Pintava uma casa na Rua dos Bandeirantes, quando conheceu a filha do patrão, que, a pedido do pai, lhe trouxe refresco de groselha para aliviar o calor.

A jovem já estava com dezoito anos completos. Foi a primeira vez que Benedito, já desesperançoso de se tornar padre, se interessou por uma moça. O serviço durou pouco mais de uma semana e, todas as tardes, no mesmo horário, ela vinha com o copo nas mãos.

Nos três primeiros dias, ela se limitou a entregar o refresco e ele se limitou a responder obrigado. Entretanto, Benedito se interessava cada vez mais pela tímida moça. No quarto dia, notou que, antes de lhe entregar o habitual refresco, a jovem demorou seus olhos nos dele, desviando-os apressada quando se viu descoberta. Coraram no mesmo instante e depois sorriram, cúmplices. Foi então que ele tomou coragem de lhe perguntar seu nome, ao que ela docemente respondeu Júlia.

Desse dia em diante, Benedito e Júlia conversavam quase todos os dias, pouco a pouco aprofundando as conversas. Após o término de seu trabalho naquela casa, o rapaz continuou a passar por ali todo fim de tarde, sempre acenando para sua amada que, ansiosa, esperava sua passagem debruçada na janela.

Dois anos depois, quando ele tinha vinte e cinco anos e ela vinte, se casaram. Nesse dia, Benedito fez uma promessa a Deus: daria à igreja um filho padre!

Como fruto dessa união, pouco tempo depois nasceu o primogênito. Por desejo do pai, recebeu o nome de Marcos, o grande evangelista bíblico. A partir de então, Benedito trabalhou incessantemente a fim de guardar dinheiro para os estudos do filho e poder mandá-lo para o convento. Já que seu sonho lhe havia sido negado pelas más circunstâncias de sua infância e juventude, jurou para si mesmo e para Deus que o filho teria um destino diferente: estudaria e dedicaria a vida ao serviço de Deus.

Com o passar do tempo, Júlia e Benedito tiveram outros dois filhos: Felipe e Ana.

Os pequenos tiveram uma infância tranquila, sem grandes luxos, mas com uma família amorosa. Marcos, aos doze anos, era um menino obediente e resignado, virtudes aprendidas desde a infância nas aulas de catecismo do padre João. Estava contente no dia em que partiu do interior de Minas Gerais para terminar os estudos no convento dos Franciscanos em São Paulo.

Foi uma alegria ímpar para Benedito. Não havia no mundo pai mais orgulhoso de um filho. Exultante, contava a novidade para todos e convidou a cidade inteira para brindar com ele a viagem do menino.

Júlia não era nem a favor nem contra a partida de Marcos. Aceitava sem questionar o que o marido queria. Apesar de não ser tão fervorosa, era uma boa mãe católica.

O ano era 1957 e, enquanto o presidente Juscelino Kubitschek construía a nova capital federal, Júlia chorava e Benedito se rejubilava vendo o primogênito deixar o lar. Enfim, o sonho do pai começava a se realizar no filho.

Com a partida de Marcos, apesar de toda sua alegria, Benedito começou a sentir o peso da separação. Era mais apegado ao primogênito do que a qualquer outra pessoa. Marcos era o único que sempre o acompanhava em tudo. Felipe e Aninha eram mais próximos da mãe. Benedito fingia não se importar, o importante era Marcos, e este já estava devidamente encaminhado na vida.

Nessa época, Felipe tinha onze anos e Aninha apenas cinco. A caçula não ligava muito para os recentes acontecimentos, o irmão sim. Sentia-se aliviado por ser o segundo filho e estar livre da promessa do pai. Apesar da pouca idade, de uma coisa ele tinha certeza: queria ser músico, seguir a vida tocando e viajando pelo mundo, guiado por seu coração. É claro que amava e respeitava as leis de Deus, tinha sido educado desde criança dentro da igreja e foi lá que teve a oportunidade de iniciar seus estudos de música. Em gratidão, tocava órgão em todas as missas, porém, jamais cogitou a hipótese de ser padre, vocação esta destinada a seu irmão e que este aceitava passivamente.

Nos anos seguintes, Benedito trabalhou sem cessar para manter o filho no convento e sustentar a família. Apesar de a inflação aumentar a cada dia, dificultando sua tarefa, trabalhava com tanto amor que jamais reclamava de sua intensa labuta, ao contrário, no fim de cada jornada, erguia os olhos para o céu e agradecia a benção de ter um filho seminarista.

O tempo passou: Fidel Castro e seus companheiros tomaram Havana implantando o Comunismo em Cuba; Brasília foi inaugurada tornando-se o Distrito Federal; Jânio Quadros foi eleito presidente do Brasil; os soviéticos enviaram o primeiro homem ao espaço; Jânio renunciou; João Goulart assumiu a presidência sob um regime parlamentarista e, com o embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba e a instalação de mísseis nucleares na ilha, a guerra fria começava a povoar os noticiários.

À parte dos assuntos políticos, na casa dos Silva a vida seguia tranquila. Após cinco anos no convento, Marcos era o melhor aluno de sua turma e tudo indicava seu sucesso como sacerdote. Todos na cidade felicitavam Benedito e Júlia pelo filho, que os visitava uma vez por ano, sempre nas férias escolares.

No final de setembro de 1962, quando Marcos enviou um telegrama, comunicando sua breve chegada, a família toda se alegrou. Sem perceber que ainda era muito cedo para as férias, Benedito começou os preparativos para a recepção do filho amado.

Quando o ônibus parou na rodoviária e Marcos desceu, ao contrário do que todos esperavam, o sentimento que tiveram ao avistá-lo não foi de felicidade e sim de espanto. O rapaz, agora com dezessete anos, estava tão magro e pálido que os próprios pais mal o reconheceram.

Benedito e Júlia olharam-se preocupados e, depois de recepcionar o filho, o levaram para casa. Felipe e Aninha aguardavam ansiosos a chegada do irmão: ele sempre tinha muitas histórias para contar sobre a cidade grande. Mas, mesmo eles puderam perceber a fragilidade de seu corpo que, ao invés da costumeira animação no regresso a casa, parecia cansado e desanimado.

Mal chegando em casa, Marcos pediu para se deitar. A viagem tinha sido exaustiva. Júlia havia preparado bolos e biscoitos para o filho, entretanto, precisou servi-lo na cama.

Marcos beliscou um pouco as guloseimas, abandonando-as logo em seguida. Chamou, então, os irmãos para perto de si.

- Está vendo aquela caixa junto à minha mala, Felipe? Pegue, é um presente para você.

Felipe deu um salto só e já estava ao lado do embrulho. Abriu-o rapidamente e pulou de volta para os braços do irmão, abraçando-o.

- Não acredito, mano, você me trouxe um violão! Você é o melhor irmão do mundo! Obrigado, mil vezes obrigado!

- Tudo bem, tudo bem. Agora pare de me apertar, vai acabar me sufocando!

Todos caíram na risada. Aliás, todos não. Aninha, séria, olhava chorosa para o irmão.

- Não precisa ficar triste, Aninha. Não esqueci a minha princesa! Traga minha mala aqui, por favor.

Tirando da mala um pacote de papel florido enfeitado com uma longa fita vermelha, estendeu as mãos para a irmã.

- Aposto que é uma boneca só pra mim, oba!

Descobrindo que estava certa, Aninha cobriu o irmão de beijos e saiu para seu quarto, saltitando com o novo tesouro. Felipe seguiu a irmã e também foi para seu quarto desfrutar do presente.

Como os pais permaneceram ao lado de sua cama, visivelmente preocupados com a fragilidade de seu corpo, Marcos prosseguiu:

- Pai, mãe, não tenho presentes para vocês e tenho certeza que não se importam. No entanto, vejo em seus olhos a surpresa por me verem assim. Não digam nada ainda. Trago comigo uma carta de frei Antônio e gostaria que lessem, antes de qualquer outra coisa.

Como o pai não tinha estudo, Marcos entregou a carta para a mãe que, apesar de também não ter finalizado o ginásio, sabia ler com clareza.

Júlia pegou a carta com receio e abriu-a sem pressa. Não tinha certeza se queria conhecer seu conteúdo.

Benedito, já nervoso com a situação, pediu que a mulher lesse de uma vez.

São Paulo, 29 de setembro de 1962.

Caríssimos Sr. e Sra. Silva,

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

É com grande tristeza em meu coração que lhes escrevo esta carta, para pôr-lhes a par das atuais circunstâncias envolvendo a vida de Marcos, vosso amado filho e meu estimado confrade no convento da Ordem dos Franciscanos Menores.

Desde meados de junho do presente ano, Marcos vem travando uma batalha terrível para manter-se em suas atividades normais devido ao seu frágil estado de saúde. No início, pensávamos que suas dores de cabeça eram normais, porém a dor agravou-se de tal forma que os médicos o diagnosticaram com enxaqueca crônica e passaram a lhe administrar fortes doses de analgésicos.

Vosso filho, tendo fé em sua recuperação, não quis preocupá-los e nós, igualmente esperançosos, respeitamos sua decisão de poupá-los de uma preocupação sem motivo. Entretanto, os fatos presentes demonstram que já não há razão para vos esconder o real estado de saúde dele.

Depois de realizar alguns exames especializados, os médicos constataram que o problema de Marcos não é a enxaqueca. Infelizmente, ele tem um tumor no lado esquerdo do cérebro que não pode ser operado.

Atendendo às recomendações médicas, ele não deve fazer esforço, por isso, deixou de assistir às aulas, bem como de ajudar nas tarefas do convento e participar de atividades comunitárias.

Devido a essa situação tão delicada, decidimos que o melhor para ele seria ficar de repouso em sua casa, junto de sua família. Temos absoluta certeza de que Marcos receberá melhores cuidados e será menos fatigado em vossa presença. Nada mais tenho a dizer, além de que, como pai espiritual de vosso filho, lamento ver essa vocação tão evidente ser desperdiçada por um capricho do destino. Contudo, se Deus assim o quis, resta-nos a fé de que tudo seja para nosso bem e nossa salvação.

Paz e Bem,

Frei Antônio Gonçalves, ofm.


Quando terminou de ler, Júlia deixou a carta deslizar por entre os dedos e, banhada em lágrimas, abraçou o marido. Pouco depois, refeitos do primeiro impacto causado pela notícia, abraçaram-se ambos ao amado filho, que também chorava.

Benedito, pela primeira vez na vida, sentiu raiva de Deus. Além de lhe ter sido negado o sonho de ser padre, agora lhe era negado o sonho – e a promessa – de ter um filho sacerdote.

Os dias se passavam vagarosos e, enquanto o mundo se admirava com a decisão do papa João XXIII de inaugurar o Concílio Vaticano II e adaptar a igreja aos tempos modernos, na casa da família Silva, ninguém estava preocupado com o futuro da igreja naquele momento. Júlia, sempre recatada, sofria em silêncio sua dor, a dor do marido e a dor do filho, mostrando-se uma mulher forte e sendo o pilar de sustentação da casa. Felipe e Aninha também sofriam com as tristezas dos pais e do irmão, porém, pouco podiam fazer para amenizar aquela dor.

Felipe, que sempre enxergou em Marcos um exemplo a ser seguido, foi quem mais se aproximou dele nesses dias de sua permanência no lar. Passava horas e horas à beira da cama conversando com o irmão e tocando para ele hinos e modinhas ao violão. Quando Marcos sentia vontade de passear e respirar ar puro, era ele quem o levava, amparado nos braços, ao jardim da casa.

Nunca esses dois irmãos, de personalidades tão distintas, estiveram tão próximos. Quando o mais velho partiu para São Paulo, ambos ainda eram jovens demais para ter conversas francas e profundas, como as que tinham agora, um aos dezessete e outro aos dezesseis anos.

Felipe, sempre questionador e romântico, havia passado toda sua vida participando das atividades da igreja junto à família, tentando domar seu espírito inquieto. Marcos, ao contrário, era resignado e sempre tentava persuadi-lo a ser assim também.

- Felipe, você precisa aceitar as coisas como elas são!

Mas Felipe não aceitava. Nunca tinha aprovado a história de o pai ter feito uma promessa em nome do filho. Diversas vezes perguntou a Marcos se ele queria mesmo ser padre, ou se estava no convento só para contentar o pai.

Na verdade, nem Marcos sabia essa resposta. Desde pequeno foi preparado para a vida religiosa e aceitou isso como seu destino, afinal, nunca lhe ofereceram outra opção.

O tempo passava e, na família Silva, os dias antes tranquilos, davam lugar a angústia e a tristeza. Benedito amargava o desgosto da promessa não cumprida e de ver o filho predileto num leito acamado, sem esperança de melhoras. Até mesmo Júlia, que carregava calada o peso de seu coração de mãe e esposa, deixava as lágrimas rolarem pela face quando estava sozinha.

Marcos estava na casa dos pais há quase dois meses e, mesmo com todos os cuidados, as dores de cabeça só aumentavam. Benedito gastou tudo que tinha com tratamentos para o filho, porém os médicos eram unânimes: não havia nada a se fazer. O jovem sofria por sua própria dor e também pela tristeza da família.

O sofrimento de Marcos era tamanho que ele quase nem saía da cama e falava sussurrando com dificuldade. Impedido de ir à igreja por sua frágil condição, pediu ao pai que chamasse padre João – queria confessar. Benedito atendeu ao pedido sem imaginar que isso era, na verdade, um aviso de despedida.

Quando padre João chegou, encontrou Marcos mais fraco do que nunca, contorcendo-se de dor. Pediu então que os familiares se retirassem, a confissão era algo particular. Quando todos saíram e a porta do quarto se fechou, Marcos sussurrou:

- Fico feliz que o senhor esteja aqui, padre! Sei que não vou sobreviver a este dia e não quero morrer sem me confessar e receber o viático.

- Sua fidelidade a Deus é um grande dom, Marcos. Faça o sinal da cruz e esteja à vontade para confessar os seus pecados.

Marcos fez o gesto solicitado com alguma dificuldade e, entre lágrimas, abriu seu coração:

- Padre, o senhor me conhece desde minha infância, sabe que tive muitas faltas, como todo ser humano tem, mas sempre busquei corrigi-las e evitá-las. Amei a Deus sobre todas as coisas e procurei amar aos outros como a mim mesmo. Uma só coisa aflige meu coração e, por isso, necessito de perdão. Meu pai, por sua imensa devoção a Deus, fez uma promessa em nome do filho que um dia teria e eu, sendo esse filho, serei a causa de seu perjúrio. Desonrarei meu amado pai e esse pecado não posso perdoar a mim mesmo. Que Deus tenha misericórdia da minha alma!

- Meu filho, que besteira você acaba de dizer! Nunca em toda minha vida conheci um filho mais obediente e preocupado em honrar os pais do que você! Não se aflija sem motivo, lembre-se: Deus nunca nos pede algo além de nossas capacidades. Todos sabemos que, se você deixar de cumprir a promessa de seu pai, não será por rebeldia, muito pelo contrário: você sempre se dispôs a cumpri-la com devoção. Não se culpe por estar doente, seria injusto com você mesmo. Deus, que permitiu sua vida seguir esse curso, há de ser misericordioso com você e com seu pai. Não vejo pecado algum em sua confissão, mas, se serve de consolo para o seu espírito, eu, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, te absolvo de todos os teus pecados. Fique em paz meu filho, o Senhor te perdoou!

- Obrigado, padre! Agora, por favor, me deixe comungar uma última vez. Sinto minhas forças se esvaindo a cada minuto.

Padre João lhe deu a hóstia e deixou que o jovem rezasse em silêncio alguns segundos. Ao término da ação de graças, Marcos, gemendo, apertou com força seu crucifixo e fechou os olhos, deixando para trás toda sua dor. Em seu rosto pálido, um discreto sorriso, de quem sabia que logo estaria na presença de Deus.

Quando padre João saiu cabisbaixo do quarto do jovem e deu aos familiares a notícia de seu falecimento, Benedito ficou inconformado e suas atitudes beiraram a loucura. Agarrou o pescoço do padre com as mãos e quase o estrangulou. Não fossem os gritos desesperados de Júlia e o rápido socorro de Felipe, a cidade teria perdido no mesmo dia o seminarista e o vigário.

Soltando o pescoço do padre, Benedito começou a arrancar os quadros de pinturas religiosas da parede, pisoteou os crucifixos, quebrou as imagens de seu altar, arrebentou todos os rosários que encontrou pelo caminho e caiu com o rosto por terra, blasfemando.

Em seguida, percebendo o que havia feito, arrependeu-se, rasgou as vestes, correu para o quintal e implorou o perdão de Deus se atirando nos arbustos de coroa-de-cristo.

Júlia nada presenciou desses fatos – quando o marido soltou o pescoço do padre, caiu desmaiada e foi levada para o quarto pelo próprio sacerdote que, apesar de ainda estar se refazendo do susto, teve de acudi-la. A única testemunha ocular, tanto do acesso de raiva quanto do acesso de arrependimento de Benedito, foi Felipe, que saiu correndo atrás do pai e o retirou todo ensanguentado do meio dos espinhos.

Foram momentos de fortes emoções. Pela primeira vez, Felipe sentiu medo. O que seria de seu pai, sempre tão religioso, sem seu primogênito e com a fé abalada? O que seria de sua mãe, tendo perdido um filho e com um marido amargurado? Como seria sua vida e a de sua irmã após todos esses acontecimentos?

O medo não teve tempo de permanecer em seu coração. Quando entrou em casa, carregando o pai nos ombros para limpar-lhe as feridas, viu em um quarto a mãe desmaiada, o padre quase assassinado e a irmã apavorada e, no outro, o corpo do irmão tão amado dormindo para sempre.

Secou os olhos e, chegando ao banheiro, deitou no azulejo frio o corpo do pai, que gritava de dor. Ajoelhado, pôs-se a retirar os espinhos e lavar-lhe as feridas da pele já inchada, fazendo desse momento a sua oração.

Embora a saúde frágil de Marcos presumisse o breve fim de sua vida, todos tinham esperança de que um milagre acontecesse e ele se recuperasse. Ninguém ousava imaginar outra coisa senão sua cura. Talvez por isso sua morte tenha causado tanta dor, como se fosse uma surpresa terrível.

Com a morte de Marcos, acabavam-se as esperanças e sonhos de seu pai.

Júlia, Felipe e Aninha, assim como toda a cidade, estavam abalados com a morte prematura de um rapaz tão bom, mas Benedito estava inconsolável. Foram necessárias algumas horas até que se acalmasse um pouco e pudesse tratar dos preparativos para o funeral. Quando os ânimos já estavam menos alterados, a família Silva e seus amigos começaram o velório de Marcos.

O enterro aconteceu no outro dia às dez horas da manhã e foi seguido por um longo cortejo saindo da igreja de São Pedro até o cemitério municipal. Houve muitas homenagens e, enquanto o caixão era coberto de terra, Felipe fez a sua, representando a família. Pegando a Bíblia pertencente ao irmão, leu um dos trechos do evangelho que se encontrava destacado:

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo coração, e de toda tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças: este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.”

E comentou:

- Como todos sabem, meu irmão foi um exemplo vivo desse evangelho. Amou a Deus com toda sua alma e sempre soube dividir esse amor com todos que cruzaram seu caminho. Era um ótimo cristão e uma excelente pessoa, não devemos nos afligir, o que ele nos deixa é só amor. Sentiremos muito a sua falta, mas cremos que ele venceu seu exílio e agora está ao lado de Deus na pátria celeste, morada eterna dos eleitos, e de lá, intercederá por nós que aqui ficamos neste vale de lágrimas.

Padre João finalizou:

- Vão em paz meus irmãos e irmãs e que o Senhor vos acompanhe sempre.

Aos poucos, todos foram deixando o cemitério. Felipe levou Aninha para casa e os pais permaneceram um pouco mais. Benedito, debruçado sobre a lápide, chorava inconformado.

- Meu amor, – dizia Júlia – nosso menino está num lugar melhor agora, longe de todo sofrimento e dor, não se aflija por ele ter voltado para a casa do Pai. Um dia todos nós partiremos, como o padre disse no sermão “a terra é nosso navio, não nossa morada” .

- Não é justo um pai enterrar um filho, essa não é a lei natural da vida! Nenhum pai deveria viver mais que seus filhos!

- Você deveria saber que nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus. Lembre-se de Jó que, mesmo perdendo todos os seus bens e filhos de uma só vez, ainda assim louvou o Senhor. Não pode você também crer na bondade de Deus, que sabe o que é melhor para nós?

Ouvindo as sábias palavras da esposa, Benedito se levantou e seguiu calado de volta para casa.

Durante dias houve luto na casa dos Silva. Nada parecia a mesma coisa sem Marcos e a certeza de que teriam um padre na família. O silêncio reinava. Ninguém tinha coragem de começar conversa alguma. A tristeza parecia definhar os sonhos de todos, principalmente os de Benedito que, desde a morte do filho, passava o dia todo na cama, desgostoso e sem forças para nada.

A morte de Marcos também afetou bastante a vida de Felipe. O rapaz, que sonhava em ser músico e viajar o mundo, não conseguia tirar da cabeça a promessa do pai de ter um filho padre.

Nunca havia sentido essa pressão sobre si. Desde sempre o candidato a cumprir a promessa tinha sido o irmão. Mas agora Marcos estava morto e, além dele mesmo, só restava uma filha mulher. Toda a responsabilidade pelo sonho do pai voltava-se para ele e Felipe amargava em seu coração a agonia de não saber o que fazer. Por fim, não teve mais escolha.

Na véspera de Natal, seu pai, que passava os dias na cama, o chamou para uma conversa. Contou-lhe sobre seus tempos de menino na casa da avó Ana, sobre o modo como conheceu a esposa Júlia e foi tecendo a história da família até chegar ao nascimento dos filhos. Chorava relembrando esses momentos, em especial quando falava de Marcos.

Felipe ouvia tudo com amor e, em diversas passagens, chorava junto com o pai. Sabia aonde esta conversa iria chegar e, acorrentando seu coração dentro do peito, resolveu aceitar o conselho tantas vezes dado pelo irmão: Você precisa aceitar as coisas como elas são!

Quando o pai pegou suas mãos e lhe suplicou que honrasse a memória do irmão, tornando-se padre em seu lugar, cumprindo a promessa feita, Felipe respondeu com firmeza:

- Sim, meu pai. Honrarei sua promessa e a memória de meu irmão.

Sabia que não tinha vocação, mas sabia também ser incapaz de dar desgosto ao pai. Se fosse para o bem daquele a quem tanto amava e a quem devia sua vida, tudo que era e tinha, faria o sacrifício com todo amor e da melhor maneira possível.

Enfim, o destino tão temido o encontrava. Seu único consolo foi o breve sorriso no rosto desesperançoso do pai.

- Meu filho, sabia que você não me decepcionaria!

Quando Benedito contou a novidade à esposa, Júlia recusou-se a acreditar. Conhecia o coração do filho e foi correndo lhe perguntar que loucura era aquela.

- Felipe, seu pai me contou sobre a conversa de vocês e não pude acreditar. Você sabe que não precisa fazer isso!

- Minha mãezinha, querida! Como posso negar um destino já traçado antes mesmo do meu nascimento?

- Você sabe tão bem quanto eu que não tem vocação, filho! Às vezes chego até a me questionar se o seu irmão tinha... agora você, não tenho a menor dúvida! Te conheço, Felipe, sei que você não será feliz na vida sacerdotal.

- Acho que ter ou não vocação é irrelevante nesse caso, mãe. Já quanto a minha felicidade, como poderei ser feliz, mesmo aqui, vendo meu pai definhando a cada dia, consumido pela tristeza? Entre ver meu pai sofrendo e ter a chance de lhe devolver a alegria, o que espera que eu faça? Ao menos uma vez devo lhe provar que sou digno de seu nome!

- Você nasceu de mim e conheço sua integridade, Felipe. Sei que seguirá seu coração, porém, saiba que nunca fui a favor dessa promessa feita pelo seu pai. Nunca me pronunciei a respeito disso porque seu irmão aceitava bem a ideia de ser padre, mas se você não quiser, eu juro que converso com seu pai!

- Não, isso não! Estou decidido. Já é hora de crescer e encarar a realidade. No início do próximo ano, se os freis me aceitarem, sigo para São Paulo e cumpro a promessa do papai com toda honra como sei que meu irmão cumpriria se estivesse vivo.

- Embora discorde, respeitarei sua decisão.

- Obrigado, mãe. Te amo!

- Também te amo, meu filho! Rezarei todas as noites para você e seu pai tirarem essa ideia maluca da cabeça.

Foi assim que, na noite de Natal de 1962, um Felipe totalmente transformado pelas circunstâncias da vida foi se deitar e essa história começou.


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